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Membros da família, jantar e a nossa esquizofrenia moral de cada dia!

Por Vera Cristofani
Publicado originalmente em Veganos Pela Abolição da Escravidão Animal

O termo esquizofrenia moral cunhado pelo professor Gary Francione é por definição “o modo ilusório, enganado, confuso de pensarmos sobre os animais em termos sociais e morais.” Ele diz que “essa confusão pode, é claro, incluir maneiras conflitantes ou incoerentes de olhar para os animais (alguns são membros da família; outros são jantar), mas isso não significa que eu esteja descrevendo uma múltipla ou dupla personalidade clássica.
Nossa esquizofrenia moral, que envolve enganarmos a nós próprios quanto à senciência animal e às semelhanças entre os humanos e os outros animais, e uma enorme confusão quanto ao status moral dos não-humanos, é um fenômeno bastante complicado e tem muitos aspectos.” Francione reflete que se por um lado concordamos que é moralmente errado impor sofrimento desnecessário aos animais, por outro, a esmagadora quantidade de sofrimento que nós impomos a eles, não pode ser considerada necessária em nenhum sentido significativo da palavra.
Uma discussão sobre a disparidade entre o que nós dizemos sobre os animais e como nós, na realidade, os tratamos foi iniciada na quinta reunião do Grupo de Estudos da Teoria Abolicionista do Professor Gary Francione. O tema da esquizofrenia moral é dividido em três partes: diagnóstico, motivos e cura. Na parte do diagnóstico foi abordado o status dos animais antes do século XIX, e como esse status supostamente mudou com a aceitação moral e legal do princípio do tratamento humanitário, isto é, a noção que nós temos obrigação moral em não impor sofrimento desnecessário aos animais.
Antes do século XIX
Antes do século XIX, a cultura ocidental não reconhecia, como uma questão geral, que os humanos tinham qualquer obrigação moral em relação aos animais. Os animais não tinham nenhuma importância e estavam completamente fora da comunidade moral. Poderia haver obrigação moral em relação aos animais, mas estas obrigações eram em relação aos humanos e, de forma alguma, em relação aos animais que eram considerados “coisas”, sem habilidade de pensar ou sentir. Um exemplo desse pensamento vem do filósofo René Descartes (1596-1650), considerado o fundador da filosofia moderna, que afirmava que os animais não são conscientes, porque não possuem alma, a qual Deus as colocou apenas em humanos.
Descartes reconhecia que os animais agiam de uma forma que parecia ser inteligente e com propósito e pareciam estar conscientes, mas eles não eram diferentes de máquinas feitas por Deus. Ele se referia a eles como “autômatos ou máquinas que se movem.” Descartes aceitava que animais não são sencientes, conscientes de dor, prazer, ou qualquer outra coisa. Fazia experimentos. Descartes não levava em consideração as reações dos animais. Ele achava que os animais não eram diferentes de uma máquina que estava funcionando de forma imprópria; para ele um cão gritando não é diferente de uma máquina rangendo que precisa de óleo. Descartes achava que obrigação moral aos animais era o mesmo que obrigações morais aos relógios. Essa obrigação moral ao relógio é direcionada aos outros humanos; similarmente podemos ter obrigação moral ao cão de alguém, mas essa obrigação é em relação ao dono e não ao cão.
Outro filósofo descrito no livro de Francione é Immanuel Kant (1724-1804). Kant não tinha as mesmas visões que Descartes, mas ainda negava que temos quaisquer obrigações morais em relação aos animais. Kant reconhecia que os animais são sencientes e podem sofrer, mas porque não são autoconscientes, nem racionais, eles são instrumentos do homem, para o nosso uso, sem valor em si mesmos. Kant achava que quem era cruel com os animais, tornava-se cruel também nas relações humanas. Kant dizia que os animais existiam meramente como um meio para um fim. Esse fim é o homem.
A lei
A visão que não temos obrigações morais em relação aos animais também era refletida na lei. Antes do século XIX, a lei não reconhecia nenhuma obrigação legal aos animais. Se havia qualquer proteção aos animais, a lei era formulada somente em termos da preocupação com humanos, relacionada, primariamente, aos interesses de propriedade.
Francione lança mão de um personagem chamado Simon, o sadista, para ilustrar essa situação. Simon propõe torturar um cão, queimando-o com um maçarico, pois ele tem prazer em fazer isso. Essa proposta de Simon gera alguma preocupação moral? Simon está violando qualquer obrigação moral em usar o animal para sua diversão? Ou a ação de Simon não é moralmente diferente do que quebrar uma noz e comê-la? Acho que qualquer um de nós não hesitaria em dizer que incendiar o cão para diversão, não é um ato moralmente justificável sob qualquer circunstância. Qual é a base do nosso julgamento moral? É meramente porque estamos preocupados com os efeitos da ação de Simon em outros humanos? Somos contra porque a ação de Simon pode aborrecer pessoas que gostam de cães? Somos contra porque fazendo isso, Simon pode tornar-se mais impiedoso nas suas relações com os humanos? Nós podemos ser contra porque nos preocupamos que a ação de Simon tenha efeitos nas suas relações com outros humanos, mas essa não é a razão principal. Na realidade, condenaríamos esse ato de Simon mesmo que ele fizesse isso em segredo. E se o cão fosse da Jane? Seríamos contra porque Simon está prejudicando uma propriedade da Jane? Também podemos ser contra a ação de Simon, porque o cão pertence à Jane, mas de novo esse não é o motivo principal. Nós acharíamos as ações de Simon objetáveis mesmo que o cão estivesse perdido na rua.
A principal razão pela qual as ações de Simon são objetáveis é em relação ao efeito direto que ela tem no cão. O cão é senciente; como nós, o cão é um tipo de ser que é consciente da dor e tem interesse em não ser queimado. Nós temos uma obrigação –direta com o cão e não aquela que se preocupa com o cão- de não torturá-lo. O único motivo dessa obrigação é que o cão é senciente, nenhuma outra característica, tal como racionalidade, autoconsciência ou habilidade de se comunicar em uma língua são necessárias. Simplesmente porque o cão pode sentir dor e sofrer, nós consideramos moralmente necessário justificar o mal que causamos ao cão. Podemos discordar sobre se uma determinada justificativa é suficiente, mas todos nós concordamos que alguma justificativa é necessária e o prazer de Simon não pode constituir tal justificativa. Uma parte integral do nosso pensamento moral é a idéia que o fato de uma ação causar dor conta como um motivo contra a ação- não meramente porque prejudicar outro ser de alguma forma nos deprecia, mas porque prejudicar outro ser senciente é, por si só, errado. E não importa se o Simon propõe queimar por prazer o cão ou outro animal, como uma vaca por exemplo. Nós objetamos a conduta dele de qualquer forma.
Em resumo, muitos de nós rejeitamos a caracterização dos animais como “coisas” que dominou o pensamento ocidental por muitos séculos.
O princípio do tratamento humanitário
As teorias do tratamento humanitário tiveram início com o advogado inglês Jeremy Bentham (1748-1832). Bentham argumentava que apesar de haver diferenças entre humanos e animais, há uma importante similaridade: ambos podem sofrer e a capacidade de sofrer é tudo que é necessário para ter importância moral e para humanos terem obrigações morais em relação a eles. Uma frase de Bentham que ficou famosa é: “A questão não é "eles podem raciocinar?" nem tampouco "eles podem falar?", mas sim "eles podem sofrer?" O princípio de Bentham representou nada mais que uma revolução no nosso pensamento moral sobre os animais no sentido que rejeitou visões como as de Descartes e Kant.
Bentham argumentava que nosso dever de não impor sofrimento desnecessário aos animais era uma obrigação moral direta a eles e era baseada somente na senciência. Isto marcou uma nítida partida de uma tradição cultural que nunca havia considerado os animais como nada além do que “coisas”, destituídos de interesses moralmente significativos.
Quem é senciente?
De acordo com o professor Francione, nem todos os animais provavelmente são sencientes. Talvez seja difícil traçar uma linha separando aqueles que são capazes de experimentar dor e sofrimento conscientemente, daqueles que não são. Sem dúvida a maioria dos animais que exploramos são sencientes. Primatas, bois, porcos, roedores são sencientes capazes de experiências mentais subjetivas. Todos os seres sencientes, apesar de qualquer diferença, são similares uns aos outros e diferentes de tudo mais no mundo que não é senciente.
A observação de que animais são sencientes é diferente de dizer que eles estão vivos. Ser senciente significa ser um tipo de ser que é consciente de dor e prazer; há um “eu” que tem experiências subjetivas. Nem tudo que está vivo é, necessariamente, senciente. Francione diz que “até onde sei, plantas estão vivas, mas não sentem dor, não agem de forma que indicam que sentem dor; não possuem estruturas neurológicas e fisiológicas que nós associamos em animais humanos e não-humanos. Dor em humanos e não-humanos serve como uma função prática, evita destruição e morte, é sobrevivência.” Plantas não podem usar a dor desta forma, como um sinal -- flores não podem sair correndo quando nós as apanhamos -- e assim, é difícil explicar porque as plantas desenvolveriam mecanismos para a senciência, se tais mecanismos são totalmente inúteis.
Princípio do tratamento humanitário na lei
O princípio do tratamento humanitário está tão fincado na nossa cultura moral, que os sistemas de leis dos Estados Unidos e outras nações pretenderam estabelecer o princípio como um padrão legal nas leis do bem-estar animal. Há dois tipos de leis, as leis gerais e as leis específicas. Um exemplo de leis gerais de bem-estar animal, são as leis contra crueldade que supostamente proíbem a crueldade e infligir sofrimento em animais, sem distinção entre os vários usos de animais. Um exemplo é a lei de Nova York que impõe sanção criminal em qualquer pessoa que “sobrecarregar, torturar, ou cruelmente espancar ou machucar sem justificativa, aleijar, mutilar, ou matar qualquer animal.” Na Inglaterra, a lei de Proteção Animal, de 1911, torna uma ofensa criminal “espancar cruelmente, chutar, maltratar, sobrecarregar, torturar, enfurecer ou aterrorizar qualquer animal ou “impor sofrimento desnecessário aos animais.” As leis específicas de bem-estar animal pretendem aplicar o princípio do tratamento humanitário em um uso de animal em particular. Exemplos: British Animals Act (Procedimentos Científicos) de 1986, é sobre o tratamento de animais usados em experimentos. The American Humane Slaughter Act, originalmente promulgado em 1958, regula o abate de animais usados na alimentação.
As leis do bem-estar animal emergiram no séc. XIX como uma aplicação direta do princípio do tratamento humanitário. Antes se Simon prejudicava o boi da Jane, a lei requeria que fosse mostrado que Simon foi maldoso com a Jane e como os tribunais não tinham nenhuma preocupação com os animais , isso era apenas limitado no sentido de que se a crueldade tinha efeito na sensibilidade do público ou na tendência da crueldade aos animais se estender aos humanos. As leis anticrueldade permitem processar Simon mesmo se ele não tivesse sido maldoso com a Jane, mas tivesse sido maldoso apenas com o seu boi. Em resumo, os estatutos posteriores ao século XIX, tinham intenção “de proteger as bestas como propriedade ao invés de criaturas suscetíveis ao sofrimento.” Enquanto que os estatutos anticrueldade foram “designados para proteção animal.”
Fonte: Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog? by Gary L. Francione (pages 1 to 9)

E assim foi nossa 2a manifestação contra vivissecção em Brasília...

Linda cena presenciada durante a manifestação!
No último sábado, dia 28 de abril, aproximadamente 90 pessoas se reuniram numa passeata em Brasília para lutar pelos direitos do animais. Crianças e cachorros dos mais diversos tamanhos também vieram manifestar. Às 15 horas a concentração foi se formando na Rodoviária da cidade, onde as pessoas se preparavam para o trajeto. Jalecos, máscaras cirúrgicas, apitos, cartazes e panfletos foram entregues aos participantes no local. O sentimento de solidariedade era fortíssimo e contagiou transeuntes que sequer tiverma conhecimento prévio da manifestação, mas se sensibilizaram com a causa e pediram para fazer parte do movimento.

O protesto Contra Vivissecção e Experimentação Animal foi convocado em nível nacional pelo grupo Cadeia Para Quem Maltrata os Animais e na capital federal foi organizado pelo Libertação Animal Brasília. Ele teve como objetivo sensibilizar e envolver a sociedade no debate em torno do uso de animais para pesquisas e formação de profissionais no meio acadêmico. Sabemos que é um assunto que não se esgota em manifestos ou outras formas de contestação, e sabemos também do esforço feito por parte da comunidade científica em minimizar todo e qualquer sofrimento imposto aos animais utilizados. No entanto, enquanto cidadãos que possuem anseios e, entre eles, o fim do sofrimento de todos seres sencientes, nos sentimos no direito e também na obrigação de estimular este debate e provocar a reflexão sobre esta questão para, neste sentido, incentivarmos o esforço pela busca de métodos substitutivos a médio e longo prazos.
Início da manifestação - saída da Rodoviária


 
A manifestação começou na Rodoviária de Brasília, ao ritmo das batidas dos tambores em direção ao Conic e depois seguiu para o Conjunto Nacional, onde estava prevista a parada final. Enquanto andávamos, panfletos educativos eram distribuídos e várias pessoas expressavam seu apoio à causa. Os apitos do manifestantes não paravam: precisávamos fazer barulho, sermos escutados. Alguns carros que passavam nas ruas buzinavam e davam sinal de positivo. Houve até quem se pronunciasse de forma mais efetiva, com gritos e comentários como "É isso aí, não pode testar não" ou "Estou com vocês, os animais não devem sofrer".

Foto: Lucas Nakamura

Ao chegarmos no Conjunto Nacional, nos preparávamos para nosso flashmob. Por duas vezes nos deitamos no chão por 1 minuto. Os seguranças do Conjunto Nacional se aproximaram com a nossa chegada, mas foram (assim como nós) extremamente pacíficos, inclusive receberam os panfletos que entregávamos. O flashmobprendeu muita atenção de quem passeava pelo shopping, que se aproximaram para fazer perguntas e tirar fotos.

Já no fim da manifestação, a emoção tomou conta de todos. Gritos de protestos foram proclamados pelas pessoas presentes e uma salva de palmas foi feita para os animais. Em meio a vários gritos de protestos, uma frase concluiu o dia - SALVE OS ANIMAIS!

Até o sol contribuiu para que a manifestação fosse bem sucedida: apesar do calor esperado, o clima estava agradável. Por volta das 16:30 o grupo de manifestantes encerrou seus protestos, muito embora a sensação que tínhamos era de que todas as pessoas ainda queriam ficar mais.

Voltamos juntos/as até nosso ponto de encontro e, novamente, as pessoas gritaram mais frases em prol dos animais. A vibração era contagiante e nos fez ter certeza de que toda essa movimentação deixou bem clara uma coisa: não somos poucos e paulatinamente temos chamado atenção do governo e da sociedade para nossa causa!

 

Sonhamos com o dia em que não haverá mais necessidade de novas manifestações e que as autoridades se emprenhem no sentido de por um ponto final em toda essa crueldade! No entanto, enquanto for preciso, gostaríamos de deixar bem claro que voltaremos e que não nos calaremos diante da injustiça e crueldade imposta aos animais não humanos. Na certeza de que contamos com o apoio de muita gente disposta a lutar, agradecemos a todas as pessoas que estiveram conosco e àquelas que, mesmo distantes, nos deram muito apoio!

Por fim, agradecimentos especiais precisam ser feitos! Agradecemos, em nome do Libertação Animal Brasília e do Cadeia Para Quem Maltrata os Animais a todas as pessoas que estiveram presentes e àquelas que não estiveram conosco, mas que nos apoiaram e ajudaram de alguma forma. Obrigada à professora Mônica Salles, que dias antes da manifestação realizou um trabalho belíssimo de sensibilização e conscientização junto a estudantes da escola em que ela dá aulas! Não poderíamos deixar de agradecer pelo reforço policial gentilmente providenciado pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

Panfletinhos produzidos por estudantes de uma escola de Brasília,
graças ao trabalho da professora Mônica Salles


Gostaríamos de deixar destacado aqui nosso muito obrigada às organizadoras da manifestação em Brasília e no Brasil, Patrícia El-moor e Norah André. Esta foi a segunda vez que as duas encararam tal missão e novamente, fizeram tudo com muita seriedade e dedicação.

Um dos folders distribuídos na manifestação


Flash Mob Anti Vivissecção e Experimentação Animal

Assim foi nosso flash mob realizado no dia 27 de abril (sexta-feira), como prévia da manifestação do dia 28!!! O balanço não poderia ser melhor! Tivemos um quórum razoável, as pessoas se mostraram bastante interessadas pelo nosso protesto e, ao final, ainda fomos recebidxs no Ministério, onde conversamos por cerca de um hora com pessoas ligadas ao CONCEA.

 

Gostaríamos de aproveitar para convidar todo mundo a participar da 2a Manifestação Anti Vivissecção que faremos neste sábado, dia 28 de abril, às 15 horas. Nos encontraremos em frente à estação do metrô da rodoviária de Brasília e faremos uma passeata pelo trecho Rodoviária-Conic-Conjunto Nacional. Venham de branco, tragam cartazes, apitos, e, se possível, máscaras cirúrgias e jalecos! A presença de cada pessoa é fundamental!!! Quem não for de Brasília também pode participar da manifestação em uma das outras 46 cidades que aderiram à convocação feita pelo grupo Cadeia Para Quem Maltrata os Animais. Confira aqui a listagem de cidades participantes!









Programação da Semana Anti Vivissecção e Anti Experimentação Animal em Brasília

Estas ações fazem parte da agenda de atividades relacionadas à Manifestação Anti-Vivissecção e Anti Experimentação Animal, que ocorrerá em em cerca de 50 cidades brasileiras, no dia 28 de abril.

Convocação: Cadeia Para Quem Maltrata os Animais / Weeac
Realização: Libertação Animal Brasília com apoio de ativistas e grupos de proteção animal do DF

Divulguem e convidem amigos e amigas simpáticos à causa!

Dia 23 de abril (2a)Flash Mob no Restaurante Universitário da Universidade de Brasília
Horário: 12:15 (almoço)
Local de encontro: em frente ao RU
Aberto a todas as pessoas que desejarem participar.
Não é necessário levar nada, apenas 1 plaquinha ou papel impresso com a seguinte imagem:



Como será:
  • As pessoas chegarão às 12:15 e se reunirão no local indicado (em frente ao RU)
  • O grupo se distribuirá ao redor do ministério e áreas próximas conforme quantidade de pessoas que aparecerem.
  • Às 12:30 a primeira pessoa irá cair – será dado um grito de “dor” e, em seguida, todas as demais pessoas cairão e permanecerão no chão por 1 minuto.
  • Após um minuto será tocado 1 apito. Todas/as os/as participantes levantarão com suas plaquinhas nas mãos e manifestantes distribuirão rapidamente material informativo e mostrarão cartazes.
  • Em seguida, o grupo se dispersará muito rapidamente e tudo voltará ao normal.

Vejam este vídeo para terem uma idéia de como faremos:






Dia 24 de abril (3a)Exibição do documentário “Não Matarás” seguido de debate
Local: Devido a uma dificuldade de logística para exibição no local anteriormente previsto, optamos por adiar este evento e disponibilizar, enquanto isso, o link para que as pessoas possam assistir o documentário pela internet, por meio do seguinte endereço:


 
 
 
Não Matarás é um documentário brasileiro produzido pelo Instituto Nina Rosa sobre experimentação em animais e suas consequências para os próprios animais, para o homem, para a educação e para o mercado.
A prática de experimentação animal é comum no meio acadêmico, em pesquisas biomédicas, nos testes de produtos de limpeza e cosméticos. Estimativas oficiais indicam que entre 17 e 70 milhões de animais são usados em experimentações somente nos EUA. No Brasil não é muito diferente, e em todo mundo, animais vem sendo mortos como alternativa mais barata, e para alguns mais confiável, para testar os produtos que nós consumimos.
Nas últimas décadas, o movimento de defesa dos direitos animais passou a denunciar o que muitas pessoas sequer imaginavam que ocorria nos laboratórios de pesquisa e nas salas de aula. Essa exposição tem causado alvoroços em laboratórios, empresas e universidades e motivado cada vez mais a sociedade a entrar no debate sobre vivisseção e experimentação em animais, e a cobrar a substituição dessas práticas.


Dia 27 de abril (6a)Flash Mob em frente ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
Aberto a todas as pessoas que desejarem participar.
Horário: 8:30 da manhã
Local de encontro: Ponto de ônibus do Ministério da Ciência e Tecnologia
Não é necessário levar nada, apenas 1 plaquinha ou papel impresso com a seguinte imagem:


Como será:
  • As pessoas chegarão às 8:30 e se reunirão no local indicado (ponto de ônibus do MCT)
  • O grupo se distribuirá ao redor do ministério e áreas próximas conforme quantidade de pessoas que aparecerem.
  • Às 8:40 a primeira pessoa irá cair – será dado um grito de “dor” e, em seguida, todas as demais pessoas cairão e permanecerão no chão por 1 minuto.
  • Após um minuto será tocado 1 apito. Todas/as os/as participantes levantarão com suas plaquinhas nas mãos e manifestantes distribuirão rapidamente material informativo e mostrarão cartazes.
  • Em seguida, o grupo se dispersará muito rapidamente e tudo voltará ao normal.
Vejam este vídeo para terem uma idéia de como faremos:


Teremos pessoas que irão fotografar e registrar ambos os flash mobs e já está definido também quem irá panfletar ao final. Porém, quem quiser participar nessas ações ou tiver alguma dúvida por favor, entrar em contato pelo e-mail bsblibertacao@gmail.com.



Dia 28 de abril (sábado) 
Manifestação Anti Vivissecção e Experimentação Animal

Local de encontro: em frente à estação de metrô da Rodoviária de Brasília
Horário da concentração: 15:00
Passeata no trecho: Rodoviária - Conic - Conjunto Nacional
Como ir: de roupa branca
O que levar: faixas, cartazes, placas de protesto, jalecos brancos de TNT (descartáveis), apitos



Imprima este cartaz em uma folha A4 e cole em um local onde mais pessoas possam tomar conhecimento da manifestação! Temos também flyers disponíveis para distribuição. Pessoas interessadas em buscá-los, por favor, entrem em contato por e-mail bsblibertacao@gmail.com.

Para saber mais sobre nossa manifestação, sobre as outras cidades que aderiram ao movimento e para conhecer nosso manifesto, acessem www.contatoanimal.blogstpot.com

Links no facebook para acompanhar nossas atividades, confirmar presença etc:

Link da Manifestação em Brasília https://www.facebook.com/events/297344816989265/
Link da exibição do documentário Não Matarás https://www.facebook.com/events/229175027189751/
Link para organização do Flash Mob https://www.facebook.com/events/203111659804154/
Link na Manifestação Nacional https://www.facebook.com/events/310092515704347/



The Superior Human?

The Superior Human? é um documentário que busca desafiar sistematicamente a crença comum de que a vida humana é superior a de outros seres. Ainda sem legendas para o português, o vídeo foi lançado no final de março de 2012 e pode ser visto online. Conta com a participação de figuras hoje referência nas discussões sobre libertação animal e veganismo, tais como Dr. Bernard Rollin, Gary Yourofsky, Dr. Richard Ryder e Dr Steven Best. Maiores informações no site oficial: http://thesuperiorhuman.ultraventus.info/




Especismo

Artigo escrito por José Eustáquio Diniz Alves* e
publicado pelo
Jornal da Ciência em 11 de abril de 2012.

*José Eustáquio Diniz Alves é doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas - ENCE/IBGE. Artigo enviado ao JC Email pelo autor.


Especismo é a discriminação existente com base nas desigualdades entre espécies. Ocorre, em geral, quando os seres racionais se consideram superiores aos demais seres vivos, inclusive, superiores aos seres sencientes não-racionais. O especismo é uma das consequências do antropocentrismo, que é a concepção que coloca o ser humano no centro das atenções do mundo, definindo a humanidade como a única espécie sujeita de direitos.

O especismo e o antropocentrismo têm suas origens mais distantes nos registros religiosos. No livro de Gênesis, do Velho Testamento, está descrito que Deus criou o mundo em sete dias, sendo que no sexto dia, no cume da criação e antes do descanso do sétimo dia, Ele criou o ser humano (primeiro o homem e depois a mulher) à sua própria imagem e semelhança, ordenando: "Frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra".

Esta concepção teo-antropocêntrica de superioridade e dominação reinou na mente das pessoas e nas diversas instituições durante milênios, especialmente no mundo Ocidental. Embora existam novas visões na Igreja que pregam que a "atitude do homem perante o mundo não pode ser de desenraizamento, distanciamento, independência e oposição, mas de compromisso com a Natureza", ainda hoje há muita gente que acredita que a população humana deve continuar crescendo, ocupando os "territórios vazios" e dominando todas as outras espécies vivas da Terra.

Porém, desde o fim da Idade Média surgiram movimentos científicos e filosóficos que questionaram, em primeiro lugar, a filosofia e a cosmologia teocêntrica. Na Renascença, Nicolau Copérnico (1473-1543) rompeu com a visão geocêntrica (a Terra no centro do Universo) e formulou o modelo heliocêntrico (o Sol no centro do Universo). Contudo, o desenvolvimento da astronomia foi muito mais longe e mostrou que o Sol é apenas uma estrela de quinta grandeza, que tem "apenas" 4,7 bilhões de anos e nasceu muito tempo depois da criação do Universo, que por sua vez não é fixo e está em constante expansão. O Sol fica na periferia da Via Láctea, sendo uma das bilhões de estelas desta Galáxia, que por sua vez é uma das bilhões de Galáxias que existem em um Universo de cerca de 14 bilhões de anos. Há também a possibilidade de existência de Universos paralelos, o que diminui ainda mais a importância do Sol entre os demais astros galáticos.

Portanto, se o Sol é uma estrela da periferia da periferia do Universo, a Terra é apenas um planeta sem luz própria e que gira, preso pela gravidade, em torno do Sol e depende de sua energia e calor. Como se diz popularmente: a Terra é um grão de areia na imensidão do Universo. Mas este "grão de areia" é a casa de cerca de nove milhões de espécies, que vivem em suas terras, águas e ar.

Nos séculos XVII e XVIII, surgiram movimentos científicos e filosóficos questionando as noções de que a natureza e as espécies são imutáveis, teriam origem divina, foram criadas de forma independente e que o ser humano possui semelhança com Deus.

Com base no empirismo e no iluminismo os pensadores progressistas buscaram combater os preconceitos, as superstições e a ordem social do antigo regime. Ao invés de uma natureza incontrolável e caótica, passaram a estudar suas leis e entender o seu funcionamento. Associavam o ideal do conhecimento científico com as mudanças sociais e políticas que poderiam propiciar o progresso da humanidade e construir o "paraíso na terra". Os pensadores iluministas buscaram substituir o Deus onipresente e onipotente da religião e das superstições populares pela Deusa Razão. Em certo sentido, combateram o teocentrismo, mas não conseguiram superar o antropocentrismo, mantendo a oposição entre cultura e natureza, entre o cru e o cozido, a linguagem escrita e a linguagem não formal e entre a racionalidade e a irracionalidade.

Já Charles Darwin (1809-1882) mostrou que todas as espécies têm uma origem comum, não são imutáveis e evoluem por meio da seleção natural, sendo que toda forma de vida atual é descendente de alguma outra espécie já extinta. Para Darwin não existem espécies superiores ou inferiores, mas apenas espécies mais adaptadas ou menos adaptadas ao meio ambiente da Terra. No máximo haveria diferenças de grau e não de essência. Inclusive a mente humana se desenvolve em função do processo evolutivo. Em síntese, todas as espécies são irmãs, pois possuem origens ancestrais comuns.

Contudo, existem pessoas que ignoram os danos ambientais da civilização e consideram que o ser humano está no topo da evolução das espécies. Além disto, toda a legislação existente na face da Terra coloca, fundamentalmente, apenas o ser humano como sujeito de direitos plenos. Evidentemente, existem países que não respeitam nem os direitos humanos. Mas, onde existe o Estado Democrático de Direito, as normas jurídicas, em maior ou menor medida, combatem o classismo (discriminação com base em renda ou posição social); o sexismo (discriminação com base no sexo e nas diferenças entre homens e mulheres); o racismo (discriminação com base em cor, raça ou etnia); o escravismo (discriminação com base na propriedade ou dominação de uma pessoa sobre outra); xenofobismo (discriminação ou antipatia por estrangeiros) e o homofobismo (discriminação com base na orientação sexual).

Todavia, quase não existe uma legislação combatendo o especismo, pois os animais não-racionais, em geral, não são considerados sujeitos de direito, no máximo são objetos de tutela. No Brasil existe uma legislação de proteção aos animais. Por exemplo, em 1934, o Decreto 24.645, assinado pelo Presidente Vargas previa detenção de dois a quinze dias para quem praticasse maus-tratos contra animais. A Lei de Crimes Ambientais, de 1998, ampliou o período de prisão de três meses a um ano para casos de maus-tratos ou abuso contra animais domésticos, silvestres, nativos ou exóticos. No plano internacional, a Unesco proclamou a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, em 1978, foi um grande marco na luta pela causa animal, defendendo os direitos dos seres vivos que não são capazes de defesa própria.

Contudo, o planeta Terra continua dominado pelos seres humanos, que consideram os animais propriedade ou coisas, a serviço dos interesses antropocêntricos e egoísticos. Cerca de 30 mil espécies são extintas todos os anos e bilhões de animais são mortos anualmente para saciar a fome humana. Os maus tratos contra animais são abundantes. É comum ouvir pessoas dizerem que enquanto houver "uma criança passando fome" o ser humano tem o direito de prosseguir com o desenvolvimento econômico e utilizar a vida de animais e outros recursos naturais em benefício próprio. Em contraposição, no máximo são criados alguns parques para a proteção dos animais mais ameaçados, mas que funcionam com exceções que confirmam a regra da escravidão e da dominação animal.

Portanto, a desigualdade entre as espécies é uma realidade inquestionável. A ciência humana descobriu que pertence a uma espécie praticamente insignificante no Universo, mas as pessoas continuam se achando o centro da Terra e superiores às demais espécies, sendo as únicas portadoras de direitos. Por isto, as atividades antrópicas ocupam cada vez mais espaço no Planeta e a humanidade sufoca a vida não-humana e a biodiversidade. Os maus tratos contra as outras espécies e a servidão animal continuam predominando no mundo. Mesmo pessoas que combatem o classismo, o sexismo, o racismo, o escravismo, o homofobismo e o xenofobismo aceitam sem muito senso crítico o especismo.

Porém, para um número cada vez maior de pessoas, está na hora de mudar esta situação. O tema dos direitos dos animais deve estar presente na Rio + 20. A noção antropocêntrica e narcisista, aprovada na Rio/92, de que "Os seres humanos estão no centro das preocupações para o desenvolvimento sustentável" deve ser alterada, para uma nova concepção que leve em conta os princípios biocêntricos. Os demais seres vivos e o próprio Planeta possuem direitos à existência em si - direitos intrínsicos - e não podem ser vistos apenas como insumos para o bem-estar humano.

Brasil busca a liberdade animal em pesquisas

Conferência mostra tendência em favor de práticas que substituam o uso de animais em estudos

Por Michelle Treichel - Publicado em 04/04/2012


A utilização de animais na pesquisa e na docência pautou na tarde de ontem o 1º Seminário de Bioética e Pesquisa da Unisc, promovido pelo curso de Direito, Comitê de Pesquisa em Ética, Comitê de Ética no Uso de Animais e Hospital Santa Cruz. Os debates da conferência Bioética e Animais na Pesquisa e no Ensino foram centralizados no anfiteatro do bloco 18 e embasados em palestras técnicas sobre o assunto. Conforme defende a professora da PUC/RS, Anamaria Feijó, é preciso estabelecer limites em relação ao uso de animais, principalmente quando se tratam de pesquisas fúteis. “Estudos que não tenham maior abrangência nacional ou internacional não deveriam ser feitos”, defende.

Em sala de aula, Anamaria ressalta que há métodos alternativos que poderiam minimizar ou até mesmo erradicar o uso de animais na docência, como já acontece em universidades de renome internacional. Para ela, nos cursos de Medicina Veterinária, por exemplo, o principal objetivo deveria salvar vidas, e não ao contrário. “Nos países desenvolvidos, os alunos acompanham os professores para tratar dos animais que realmente têm problemas. Eles aprendem a tratar dos bichos a partir de sua cura.” Reforça, ainda, que é inadmissível sacrificar vidas saudáveis em favor de uma técnica. “Trata-se de uma mudança cultural, com resultados a médio e longo prazo.”

Durante o evento, a professora da Unisc, Natália de Campos Grey, abordou a parte legal relacionada ao assunto. No Brasil, a lei 11.794/2008 disciplina a criação e utilização de animais em atividades de ensino e pesquisa científica, sendo regulamentada pelo decreto 6.899/2009. “Estamos no caminho que trilha a substituição de animais nas medidas científicas e tecnológicas por práticas alternativas”, explica. As resoluções dão mais força aos Comitês de Ética no Uso Animal (Ceuas), que podem nortear a questão e ampliar as boas práticas. Natália ainda lembra do exemplo da União Europeia, que atualmente possui a legislação mais rigorosa em relação ao uso de animais.

Fígado artificial vai substituir testes de medicamentos em animais



Pesquisadores alemães desenvolveram um modelo biológico do fígado capaz de funcionar fora do corpo humano, tornando-se uma ferramenta importante para o teste de novos medicamentos.

Além dos aspectos éticos crescentemente levantados contra o uso de animais para a pesquisa demedicamentos, cada vez mais os cientistas admitem que ratos e camundongos quase nunca são modelos adequados para o teste de remédios para uso por seres humanos - veja a reportagem Genoma do camundongo mostra deficiências de seu uso como modelo animal.

"Nosso órgão artificial tem por objetivo oferecer uma alternativa aos experimentos com animais," diz a professora Heike Mertsching, do Instituto Fraunhofer, que desenvolveu o fígado artificial em conjunto com suacolega Johanna Schanz.

"Particularmente, humanos e animais têm metabolismos diferentes. 30% de todos os efeitos colaterais aparecem apenas nos testes clínicos, quando os medicamentos são dados a humanos," diz a pesquisadora.

Fígado artificial

O modelo de fígado artificial possui um sistema próprio de vascularização, criando um ambiente natural para o crescimento das células. As células humanas foram colocadas sobre a estrutura de vasos sanguíneos de um pedaço de intestino de porco. Todas as células do animal foram retiradas, mas os vasos sanguíneos foram preservados.

As pesquisadoras usaram células humanas responsáveis pela quebra e transformação dos medicamentos, chamadas hepatócitos, e células endoteliais, que agem como uma barreira entre o sangue e as células dos tecidos.

A fim de simular o sangue e a circulação, os pesquisadores colocaram o modelo em um biorreator controlado por computador, dotado de uma bomba tubular flexível. Isto permite que os nutrientes circulem, sendo injetados e retirados da mesma forma como ocorre no sistema de veias e artérias do corpo humano.

"As células ficam ativas por até três semanas," dizem as pesquisadoras. "Esse tempo foi suficiente para analisar e avaliar as funções. Mas é possível alcançar um período maior de funcionamento."

Tecido para transplantes

As duas cientistas verificaram que o modelo biológico artificial funciona de forma similar ao fígado humano, quebrando as moléculas dos medicamentos, retirando os compostos tóxicos e fabricando proteínas.

Estas são pré-condições importantes para a realização de testes de medicamentos ou mesmo para um futuro uso dos tecidos artificiais em transplantes, na medida que o efeito de uma substância pode mudar quando ela é transformada ou quebrada quimicamente - muitos medicamentos somente são metabolizados em suas formas terapeuticamente ativas no fígado, enquanto outras podem desenvolver substâncias tóxicas.

As pesquisadoras já demonstraram as possibilidades básicas para o uso do seu modelo com vários tipos de células, incluindo fígado, pele e intestino. Os testes continuarão e elas afirmam que seu fígado artificial poderá se tornar uma alternativa aos experimentos com animais dentro de dois anos.

Excelente resposta à reportagem da Galileu “Ratos de laboratório têm mais mordomias do que se imagina”

Por Robson Fernando de Souza - www.consciencia.blog.br

Na prática entrando na recente onda do conservadorismo científico em defesa da exploração de animais em pesquisas, a revista Galileu fez na última sexta-feira, em uma reportagem, sua parte em tentar convencer os internautas de que não haveria nada de mais em explorar cobaias nos laboratórios e biotérios. De linguagem “cool” e juvenil, o site visou “mostrar” aos jovens leitores de que a vida dos camundongos e ratos seria algo análogo a uma hospedagem em hotel de luxo, coisa que mesmo os seres humanos invejariam, num esforço alienante e manipulador que, visando perpetuar e naturalizar a escravidão animal perante a sociedade, ainda mais as gerações juvenis de hoje, deve ser denunciado e desmentido.
O texto, dividido em três páginas, já fala de “mordomias” e afirma que as futuras vítimas das pesquisas in vivo teriam mais “benefícios” em sua prisão do que o senso comum pensaria. Sabe disfarçar com denotações fantasiosas e atraentes a velha argumentação pseudo-bem-estarista de que as cobaias seriam “bem tratadas” sob “normas rígidas de higiene e conforto”.
Mas cai a ficha rapidamente para quem sabe que o grande problema não são simplistamente o “bem-estar” e a existência de crueldades explícitas, mas sim a escravidão, o tratamento de animais como coisas, mãe de todas as violências do laboratórios. Logo no primeiro parágrafo da primeira página, vemos referências à “produção” e preço em dinheiro de roedores, como se fossem objetos feitos para o usufruto por seus usuários, mercadorias dotadas de utilidade para seus compradores.
Nesse processo, a linguagem fantasiosa se mostra novamente, ao dizer que “os ratinhos que vão dedicar sua vida e morte à ciência são tratados como reis”. É uma dupla inverdade essa parte. Primeiro porque eles não dedicam nada, e sim são forçados a viver e morrer para fins utilitários que não dizem respeito a qualquer de seus interesses próprios de seres sencientes. Segundo porque a alusão aos “reis” é uma falácia de falsa analogia, visto que nenhum rei é considerado ser moralmente inferior, forçado a nascer e viver para uma vida de prisão em pequeno confinamento e de servidão, programado geneticamente para sofrer doenças tormentosas, torturado e morto para fins de duvidosa “contribuição para o progresso”.
Em seguida, a descrição de toda uma parafernália técnica para “armazenamento” e “manutenção” das cobaias: esterilização, ar-condicionado, restrição de entrada, indumentária especial, temperatura específica constante, troca de ar, luz baixa, barulhos extremamente restritos…
A reportagem tenta passar a imagem de que isso seria para “acomodar bem” os animais, fazê-los se sentir “confortáveis” ou mesmo “respeitar seu estilo natural de ser”. Quando se sabe, porém, segundo alguns dos próprios praticantes de vivissecção, que nada disso é feito propriamente em respeito às cobaias, mas sim para impedir a introdução de variáveis inesperadas ou fatores que poderiam interferir na pesquisa – como o estresse em vão, a contração de doenças ambientais e o sentimento de calor. Se houvesse ali um mínimo de respeito aos animais, eles seriam deixados livres e não seriam sequer tocados por qualquer cientista que na nossa realidade estivesse interessado em lhes causar dores crônicas, câncer, choques elétricos, medo, estresse proposital e tudo o mais.
E volta à falsa analogia ao dizer que “nos biotérios, os ratos são tratados com a mordomia de um hotel 5 estrelas”: confinar um ser senciente necessitante de liberdade num pequeno espaço, por mais confortável que seja, não é tratá-lo com mordomia e luxo, e sim aprisioná-lo. E não há qualquer regalia na vida de um ser que é forçado à prisão perpétua desde o seu nascimento e será torturado num experimento em poucas semanas ou mesmo poucos dias de vida.
Virando a página, a desfaçatez continua, nesse trecho: “Depois do tratamento VIP no berçário, onde passam dias ou até meses, os animais são recrutados para os laboratórios. Começa aí sua vida de aventuras e desventuras.” Deve-se responder a isso com o ressalto dos seguintes fatos:
a) Não passa pela cabeça de ninguém de sã consciência tratar uma Very Important Personaprisionando-a num quarto onde ela passará o resto de sua vida e torturando-a e executando-a nos seus últimos dias ou semanas de existência;
b) Esses “dias ou até meses” são nada menos do que toda a vida do animal exceto o período da pesquisa;
c) Esse “recrutamento” é feito de uma forma forçada que nem o serviço militar obrigatório é capaz de fazer. É equivalente às Forças Armadas criarem seus recrutas desde o útero, sem que haja qualquer possibilidade de eles sequer sonharem com uma vida civil, e executarem todos eles depois de terem participado de uma guerra ou uma missão de paz. Os vivisseccionistas, para explorar as cobaias, se aproveitam justamente da impossibilidade de elas recusarem ou aceitarem a “missão” a que são forçadas, impondo um “recrutamento” extremamente forçado;
d) As únicas “aventuras” que podem vir à mente quando se fala nelas são os “desafios em labirintos e piscinas”, que, dependendo do propósito do experimento, podem induzir sofrimento e danos físicos nos animais, considerando que, por exemplo, pode ser uma pesquisa para testar como ratos alcoolizados ou entorpecidos com drogas pesadas lidam com piscinas ou labirintos;
e) Detalhe para as “desventuras”, que, como os defensores dos animais sabem, podem ser toda a sorte de experimentos de tortura, como indução de câncer, entorpecimento com drogas ilegais ou álcool, inalação de fumaça, choques elétricos, provocação de medo e ansiedade, entre tantos outros tipos. Como esses animais podem viver uma vida de “mordomia” ou ser tratados como “VIPs” se têm esse destino e ainda no final são invariavelmente mortos?
E a segunda página é bem curiosa. Ela contradiz toda a linha de raciocínio do texto como um todo, ao, sem querer, denunciar que os roedores são animais muito assustáveis e estressáveis e qualquer estímulo sensorial, por menor que seja, pode causar estresse ou comportamentos bizarros (como a mãe canibalizar seus próprios filhotes). Destaque para os três trechos seguintes, que põem abaixo a história de que a vida das cobaias seria algo invejável pelos seres humanos:
“Quando a reportagem da Galileu visitou o Laboratório de Cronofarmacologia da USP, a presença de estranhos causou agitação. Os ratos davam voltas na gaiola e se escondiam. A irritação maior foi a de um deles, fotografado sozinho. Os pelos se arrepiaram, os “bigodes” passaram a se mexer muito e, em seguida, o animal teve uma súbita dor de barriga e fez cocô ali mesmo.”
“Quando uma pessoa perfumada toca um filhote, a mãe pode não reconhecê-lo — e acabar comendo a própria cria. Barulhos como música e conversa alta também podem ter final trágico. “Se alguém der um grito perto de uma fêmea de porquinho-da-índia prenha, ela pode até abortar”, afirma [a diretora de um biotério]. Por isso, os pesquisadores tomam o maior cuidado para não estressar os bichos.”
“Não é à toa que os ratos se escondem atrás da lata de lixo ou em bueiros. Eles temem espaços abertos e altura. Os cientistas aproveitam esse ponto fraco para fazer testes de ansiedade. Soltá-los em piscinas fundas, onde eles não possam se apoiar, é uma das formas de testar suas reações. Mas o brinquedo mais popular da medicina comportamental é o labirinto, usado na avaliação de ansiedade há mais de 20 anos.”
Mais adiante, o título de outra seção da reportagem – “Roedor sem dor”. Acaba levando o leitor mais atento à conclusão de que apenas alguns ratos e camundongos (os reprodutores e reprodutoras) vivem “sem dor”, enquanto todos os demais enfrentam danos físicos e sofrimento quando são feitos vítimas das experiências. Aliás, mesmo essa parte é posta em xeque num verdadeiro tiro no pé por parte de sua autora. Porque, se interpretarmos o título “Roedor sem dor” como algo relativo à preservação da integridade física da cobaia, a afirmação de que ela é invariavelmente morta por abate ou jogada às cobras destrói essa própria insinuação titular.
E sem falar na grave indução ao erro que esse trecho final da segunda página traz aos leitores. Primeiro porque trata a questão das pesquisas com animais com um tremendo reducionismo: é como se todo o universo de experiências in vivo se restringisse a fazer os roedores enfrentarem medos ou ingerirem bebidas alcoólicas. Segundo porque ignora que as cobaias não reprodutoras são sacrificadas, por motivos de biossegurança, depois da conclusão dos experimentos, e não quando estão idosas.
Além, também, da repetição, no trecho final dessa página, da desfaçatez que marca a reportagem: “Justo. Afinal, dedicaram sua vida ao bem da ciência e muitos deixam descendentes para seguir o trabalho.” Tanto porque julga “justo” que se assassine animais em nome de um método antiquado e antiético de ciência experimental, ainda mais depois que eles passaram por toda uma vida de aprisionamento seguido de tortura, como na afirmação de que “dedicaram sua vida” a algo que não aceitaram nem puderam recusar fazer – ser vítimas de experimentos que violaram sua integridade física, lhes causaram sofrimento e implicaram o fim precoce de sua vida.
E na terceira e última página, repete-se a manipulação que marcou a primeira: alusões às características de hotéis (“5 estrelas”, “mordomia”, “hóspedes”, alimentos “servidos à vontade”). Já falavam George Orwell e Tom Regan sobre essa estratégia de abordar de forma interesseira um assunto que demanda senso crítico. O primeiro falou doduplipensar, através do qual a manipulação midiática torna sinônimas duas ideias diametralmente opostas (guerra e paz; escravidão e liberdade; ignorância e força; no caso da reportagem, prisão e hotel, exploração e vida boa). O segundo, por sua vez, traz ao debate “a arrogância de Humpty Dumpty”: fazer com que a palavra ganhe o significado que a pessoa interessada queira que tenha (no caso da reportagem, “mordomia” significa ocultamente manter um animal aprisionado, privado de liberdade, por toda a vida e torturá-lo em seus dias finais).
Quem leu a matéria pró-vivisseccionista percebeu que a Galileu presta, com ela, um grande desserviço à ética, tanto animal como jornalística, e atrapalha muito a discussão cada vez mais polemizada sobre o uso ad aeternum de animais não humanos em experimentos científicos.
Por outro lado, mostra o equívoco que é tentar defender os animais não humanos com base apenas no desejo de que vivam em bem-estar. É esse reducionismo bem-estarista que acaba autorizando aqueles que vivem de explorar animais a fazerem o que bem quiserem com seus escravos, inclusive infligir-lhes claras violências, desde que ponham nessa exploração uma roupagem de “preocupação com o bem-estar animal”. Isso nos leva à conclusão de que a luta de quem se opõe à experimentação em cobaias deve ser não simplesmente pelo bem-estar, mas pela libertação animal, pelo fim de toda e qualquer forma de tratar animais como escravos.